VALE A PENA LER: Filho autista de Marcos Mion pede presente inesperado no Natal e pai se emociona: ‘Mestre!’

Por - 28/12/2015
Em um texto emocionante
publicado no último domingo (27) no Facebook, o apresentador Marcos Mion fez
uma homenagem e falou sobre o presente inusitado que seu filho, Romeo, que é
autista, pediu de Natal.
Ele relata que, em
novembro, pediu que seus três filhos – Romeo, Stefano e Doninha – escrevessem
uma carta ao Papai Noel. Ao redigir que gostaria de ganhar apenas uma escova de
dentes azul, Romeo proporcionou reflexões e relembrou a todos – e
principalmente à sua família – qual é o verdadeiro significado do Natal.
LIÇÕES QUE APRENDI COM MEU
FILHO AUTISTA
Este texto é uma reflexão
natalina. Um aprendizado.
Quanto mais leio para meus
filhos sobre o “menino” Jesus e toda sua sabedoria, mais a identifico dentro da
minha própria casa.
Não apenas os discípulos,
mas todos que o conheciam, chamavam o menino Jesus de mestre.
Mestre não é um titulo que
alguém pode atribuir a si mesmo. O mestre nasce da capacidade do interlocutor
de reconhecer a sabedoria quando entra em contato com ela.
O mestre, para existir,
por mais sábio que seja, depende da humildade daqueles ao seu redor de se
reconhecerem numa posição de inferioridade, de aprendiz.
(E é assim que me sinto.
Humilde e extremamente feliz de dividir meu dia a dia com uma criança que
ilumina e engrandece todos ao seu redor)
Todos ja me viram falar
publicamente que me sinto abençoado e extremamente feliz por ter sido escolhido
por Deus para ser pai de uma criança autista, ou como eu prefiro dizer, o
guardião de um anjo. O meu Romeo.
Sempre que faço algum
post, aparecem centenas de pais comentando e dividindo o mesmo sentimento de
gratidão. Como se fosse um clube que, quem não faz parte, secretamente agradece
e não consegue nem começar a entender pq aquelas pessoas são tão gratas por
fazerem parte dele.
Afinal, como que, na
pratica, meu filho me faz tanto bem? Como uma criança que, aparentemente, tem
dificuldades consegue me ensinar?
Como falei acima, parte da
minha capacidade de identificar a sabedoria e transforma-la num aprendizado.
Vou contar o que aconteceu
este Natal e qual foi a lição que ele nos deu.
Como de costume, pelo fim
de Novembro, minha esposa, Suzana, e eu juntamos os tres para fazer a carta do
Papai Noel.
– “Eu quero infinitos
Legos!”, disse o Stefano.
– “Calma que ja tenho
minha lista separada em imagens no ipad”, disse Doninha, lembrando da
quantidade razoavelmente grande de presentes que ja tinha separado entre
borrachas da Hello Kitty e um tenis da Nike, alem de varias coisas de menina de
marcas que ela gosta.
Resumindo? Duas listas
extensas e extremamente comuns para crianças que convivem num mundo
tecnológico, repleto de marcas, com demandas que eu considero ridículas de
consumismo. Propagandas em todo lugar, aquela maldita sensação, que eu odeio,
causada na escola que é necessário ter pra existir. Sensação que lutamos muito
contra em casa enchendo as crianças de auto confiança, dando “centro” pra elas
saberem que o que interessa na vida não são as coisas que o dinheiro compra,
mas que, por motivos óbvios, sempre cerca qualquer criança hoje em dia. Ainda
mais na época do Natal!!
Até que chegamos no Romeo
e indagamos o que ele gostaria de ganhar do Papai Noel.
“Uma escova de dentes
azul”.
E agora chegamos no ponto
crucial desse texto.
Se você da risada com essa
resposta e pensa que o menino autista realmente esta fechado no seu mundo e não
conecta com a realidade, que é filho de um artista de tv, que poderia pedir
qualquer coisa no mundo que ganharia e, burro, pediu só uma escova de dentes
azul, esse texto não vai fazer sentido algum pra você. Pode parar por aqui.
Você não consegue identificar um ensinamento quando se depara com um.
Suzana e eu,
instantaneamente ficamos emocionados com aquela resposta. Ao meio de tanto
consumismo, numa época que virou símbolo de consumismo, nosso mestre, sem
saber, sem ter a consciência externa do que estava fazendo, afinal sua
sabedoria é nata, é orgânica e instintiva, colocou nossos pés no chão, nos
remontando com os verdadeiros valores do Natal.
O que realmente vale nessa
vida? Essas coisas materiais vão com o tempo, quebram, ficam velhas e obsoletas
tornado-se um lembrete vivo e constante de dinheiro que jogamos pela janela
adquirindo valores que não interessam.
Não serei hipócrita e
dizer que não é saudável comprar brinquedos e presentes. Não é isso. Sou
totalmente a favor de usar o ato da compra material como recompensa e até como
educação, inclusive de valores morais, mas fato é que existe um grande exagero
nas proporções que o consumismo tomou hoje em dia, como mencionei explicando os
pedidos dos meus outros filhos.
Ainda perguntamos pra ele
se não queria mais nada, um bichinho de pelúcia que ele adora, um ipad novo
que, para quem não sabe, é uma das ferramentas mais poderosas de comunicação
dos autistas com o mundo exterior, mas ele foi categórico: “uma escova de
dentes azul. É isso que eu quero ganhar do Papai Noel”.
Até que finalmente chegou
o dia do Natal. Fizemos a comemoração da véspera, deixamos os cookies feitos em
família na varanda para o bom velhinho e todos foram dormir muito ansiosos com
a visita do Papai Noel na madrugada.
Não preciso dizer que 5:00am já ouvi Tefo rasgando papel de presente! rs.
Levantamos para acompanhar
e viver com eles todo esse momento magico que tem data de validade, pois a
crença real no Papai Noel não é eterna e, hoje em dia, acaba cada vez mais
cedo. E enquanto Tefo e Doninha pareciam dois demônios da tasmânia envoltos em
presentes e embrulhos, abrindo mais um e mais um e mais um, Romeo assistia de
longe com um certo grau de tensão no ar.
“O Papai Noel trouxe minha
escova de dentes azul?” ele perguntava sentindo o que eu identifiquei como medo
de frustração! Uma real incerteza se ganharia aquele único e tão valioso
presente. Lembrem que isso foi na manhã do dia 25, quase 2 meses depois do dia
que escreveram as cartas e essa ainda era sua única vontade, seu único desejo
de Natal.
Conduzi Romeo até arvore e
o deixei identificar o presente com seu nome!
Fico emocionado ao
lembrar, mas ele abriu o embrulho com uma expectativa tão grande, uma ingenuidade
e um doutorado em desapego que, quando o ultimo pedaço de papel revelou sua
escova de dentes azul, ele foi tomado de emoção! Abaixou a cabeça num alivio e
se atrapalhou de tão forte que essa emoção veio.
Sim, ele chorou. Chorou de alegria, inundado
pela mais pura e bela emoção! Eu e Suzana choramos juntos.
Tão pouco…um presente tão
simples…e ai me deu o estalo. Mestre!
Entendi que era algo muito
maior do que uma simples escova de dentes. Ali, naquela emoção, naquela pureza,
naquela humildade e, acima de tudo, naquele desapego, tive a maior lição de
Natal da minha vida.

Obrigado Mestre, por mais
uma. Te amo.