O Grande Desafio 2016, por Bruno Menelau

Por - 17/01/2016
O mestre em Economia pelo
PIMES/UFPE com pós-graduação em Comércio Exterior pela UFPE Bruno Gomes de Sá
Menelau faz, em artigo enviado ao Blog de Jamildo, uma análise da atual
conjuntura macroeconômica do País e desafios para 2016
Menelau é graduado em
Ciências Econômicas e Ciências Contábeis pela UFPE e UNICAP, respectivamente.
Professor titular da Faculdade Boa Viagem e da Faculdade FEPAM.
O Grande Desafio 2016
O Brasil registra, ao
final de 2015, uma profunda crise política, índice inflação de dois dígitos,
crescente déficit público, forte queda da atividade econômica, elevada
depreciação do Real, baixa taxa de investimento, elevado pessimismo dos
empresários, alta taxa referencial de juros ( Selic) , além de sofrer
rebaixamentos por agências internacionais de classificação de risco. Esse
cenário adverso vem sendo classificado por economistas e analistas de mercado
como uma “tempestade perfeita”.
O ano de 2016 inicia-se
com severas dificuldades a serem superadas no âmbito econômico e político pelo
governo Dilma Rousseff. No âmbito político, novas denúncias sobre os casos de
corrupção envolvendo políticos e empresários próximos ao governo, através do
instrumento de delações premiadas na Operação Lava Jato, a continua ameaça do
impeachment da Presidente Dilma pelo descumprimento da Lei de Responsabilidade
Fiscal (Pedaladas Fiscais) e falta de apoio da base aliada no congresso.
No campo econômico, o
primeiro relatório semanal divulgado pelo Banco Central do Brasil não traz
previsão nada otimista, indicando nova forte queda da atividade econômica,
tendência a aumento da taxa Selic, grande dificuldade do governo em cumprir a
meta do superávit fiscal, aumento do índice de desemprego, além de dificuldade
de convergir o índice de inflação ao teto da meta estipulada.
Já no ambiente
internacional, a desaceleração da economia chinesa, contribuindo para a queda
do preço de commodities (produtos em que o Brasil possui forte potencial
exportador),  bem como nova possibilidade
de novos aumentos das taxas de juros pelo Banco Central Americano (Fed),
aumentam o grau de incertezas sobre a economia Brasileira.
Durante o primeiro
semestre, o governo Dilma Rousseff tenderá a focar fortes esforços para afastar
a possibilidade do impeachment. Esse processo está em análise no Congresso
Nacional, assim como será julgada, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a
ação que apura denúncia de que recursos oriundos de corrupção foram doados por
empresas para custear a última campanha eleitoral da Presidente Dilma.
Investigações de corrupção
pela Polícia Federal e pela Justiça brasileira, que afetam políticos e grandes
empresas, continuaram a trazer instabilidade política ao governo, além da dificuldade
de relacionamento com o Congresso e baixo índice de popularidade.
Nas últimas semanas, o
governo vem sinalizando colocar em pauta uma tímida e desarticulada agenda
positiva, visando contornar perspectivas tão pessimistas. Uma das medidas é
tentar acelerar o início do programa de concessões públicas, buscando estimular
investimentos privados em obras de infraestrutura, bem como conceder novas
linhas de crédito a empresas exportadoras.
Como ponto negativo,
registra-se forte pressão de alguns membros do governo em ressuscitar as velhas
práticas de subsídios e linhas de crédito a determinados setores privilegiados
via bancos públicos, como, por exemplo, o setor automotivo.
Essa ação não foi
suficiente para proporcionar crescimento sustentável ao PIB do País no primeiro
governo Dilma e ainda acarretou vários problemas como: distorções de mercado, o
agravamento do déficit fiscal e o aumento da crise financeira de vários
municípios, pela redução dos repasses do Fundo de Participação dos Municípios.
Para retomar o superávit
primário, o governo continua a apostar no retorno do polêmico Imposto Sobre
Movimentação Financeira (CPMF) e também levar a votação no congresso uma nova e
desgastante reforma da previdência social.
A queda da atividade
econômica em 2015 de aproximadamente -3,71%, representará um custo de cerca de
U$ 60 bilhões para o País. Observa-se, no último relatório Focus divulgado,
nova queda do PIB de 2016 (-2,99%), indicando que apenas tenderá ser finalizado
o ciclo de queda da atividade econômica em 2017, quando é estimado leve
crescimento do PIB em 0,87%. De acordo a pesquisa realizada em 93 países pela
Bloomberg, a recessão brasileira só não será pior que a da Venezuela, com queda
do PIB estimada em -3,3%.
O índice de inflação
(IPCA) sinaliza redução em comparação ao ano de 2015, todavia tende a encerrar
o ano de 2016 ainda acima do teto da meta estabelecido pelo governo de 6,5%
a.a. Apenas em 2017 o índice de inflação irá convergir para dentro do limite da
meta.
A taxa de desemprego
continuará crescente com estimativas de redução de 2 milhões de postos de
trabalho ao longo do ano.
Para o câmbio, estima-se
uma depreciação próxima de 8% em comparação com a última cotação do ano
anterior (R$ 3,94), com taxa de R$ 4,25 ao final de 2016. Em 2015 o Banco
Central Brasileiro gastou aproximadamente U$22 bilhões para conter avanço do
Dólar frente ao Real.
Para a taxa referencial de
juros (Selic), projeta-se elevação de 1% ao final de 2016 em comparação ao
anterior, finalizando 15,25% a.a., sendo um entrave tanto para o ajuste fiscal,
por aumentar o endividando público e desestimular consumo e investimento
produtivo.
A taxa de investimento
proporcional ao PIB continuará abaixo da média dos últimos 5 anos pelos
próximos dois anos,registrando investimentos de aproximadamente 17% do PIB,
conforme estimativa do FMI.
Os dois anos consecutivos
de queda da atividade econômica e o déficit das contas públicas contribuem para
o aumento da proporção Dívida/PIB, podendo alcançar índice perigoso próximo de
77% ao final de 2016.
Apesar das dificuldades
com um cenário denominado de “tempestade perfeita” por analistas de mercado, O
Brasil possui uma economia diversificada, com vasto mercado consumidor, e com
bases sólidas. Essas condições ficam evidentes quando comparadas a dificuldades
sofridas no passado, como por exemplo, durante a década dos anos 80, com
elevada dívida externa, o índice de inflação registrando mais de 2000% a.a e o
País decretando moratória aos credores externos.
O Brasil hoje possui nível
de reservas internacionais consistentes, bem como possui projeção de receber,
mesmo em momento adverso, investimentos externos diretos de aproximadamente U$
55 bilhões, em 2016, e atingir superávit comercial de U$ 33 bilhões (dobro do
valor registrado no ano de 2015).
Apesar da forte
depreciação do Real acumulada de aproximadamente 47% ter ocasionado forte
impacto para o índice de inflação em 2015, caso o mesmo não venha a sofrer
fortes variações em 2016, o câmbio passa a ser grande incentivo ao mercado
exportador, principalmente de produtos industrializados, como também atrativo a
novos Investimentos Externos Diretos (IED).

A grande questão é como um
governo tão desarticulado, com forte desgaste e elevada rejeição, terá
condições reais de realizar os ajustes econômicos necessários, assim como as
reformas essenciais para a retomada do ciclo de crescimento econômico do
Brasil.