Morre, aos 71 anos, o músico Naná Vasconcelos

09/03/2016 12h39
Da Folha 
Morreu na manhã desta
quarta-feira (9), às 7h39, o músico Naná Vasconcelos, que estava internado no
hospital Unimed Recife, na Ilha do Leite, por conta de complicações de câncer
de pulmão. Ele deu entrada no centro médico na segunda-feira (29), depois de um
mal-estar sentido após um show em Salvador, no dia anterior. Ele lutava contra
a doença desde agosto do ano passado, quando descobriu um tumor em estado de
desenvolvimento avançado no pulmão esquerdo. Após 20 dias de internamento, o
percussionista foi liberado para continuar o tratamento, que consistia em
sessões de quimioterapia e radioterapia, por 40 dias, no ambulatório do mesmo
hospital.
Juvenal de Holanda
Vasconcelos, mais conhecido como Naná Vasconcelos, nasceu no Recife, em 2 de
agosto de 1944, e se consolidou ao longo das décadas como um dos gigantes da
música mundial. Seu trabalho – registrado em 24 álbuns autorais e incontáveis
parcerias, com nomes como B.B. King, Ella Fitzgerald e Milton Nascimento –
sempre foi marcado pela ousadia nos experimentos sonoros, desde a percussão e o
berimbau a instrumentos eletrônicos e objetos comuns.
Aos 12 anos, já tocando em
grupos de maracatu locais, ensaiou as primeiras criações musicais na banda
marcial da qual seu pai, violonista, fazia parte. Começou manuseando bongôs e
maracas, aprendendo logo a extrair mágica dos batuques de seus ancestrais. Nos
anos 1960, saiu do Recife para se aventurar no Rio de Janeiro, lugar de onde as
coisas explodiam para todo o País, e lá conheceu o mineiro Milton Nascimento,
que, como ele, empreendia os primeiros passos rumo a uma carreira artística.
Da bateria ritmada ao lado
de Milton à percussão dos shows psicodélicos de Gal Costa, na virada para os
anos 1970, Naná partiu para experimentos percussivos ainda mais ousados. Com referências
que abarcavam desde a erudição do carioca Heitor Villa-Lobos às guitarradas do
norte-americano Jimmy Hendrix, o recifense surpreendeu o saxofonista argentino
Gato Barbieri, que o levou para rodar o mundo com o seu conjunto.
Depois de uma consagrada
apresentação no Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, Naná ganhou o mundo. Em
1972, enquanto morava na França, gravou seu disco de estreia, o elogiado
“Africadeus”. No ano seguinte, no Brasil, gravou o também aclamado
“Amazonas”, que lhe aproximou do multinstrumentista carioca Egberto
Gismonti. O encontro rendeu aos dois três álbuns, lançados ao longo de oito
anos: “Dança das cabeças” (1976), “Sol do meio-dia” (1977)
e “Duas vozes” (1984). No próximo mês, os dois voltariam a se
encontrar no palco para a gravação de um DVD no Japão.
A lista de parcerias
artísticas de Naná é preenchida por nomes de peso. Na transição para os anos
1980, por exemplo, o pernambucano se juntou ao trompetista Don Cherry e ao
sitarista Colin Walcott, ambos estadunidenses, no conjunto Codona, cujo nome é
formado pelas primeiras sílabas dos nomes dos integrantes. Ainda contaram com
Naná em seus trabalhos o pianista americano Walter Bishop Jr., o violonista
francês Jean-Luc Ponty, o grupo americano Talking Heads e nomes da música
brasileira, como Caetano Veloso, Marisa Monte e Itamar Assumpção, com quem ele
divide os méritos do disco “Isso vai dar repercussão” (2004).

Seu álbum solo mais
recente é “4 elementos” (2013), no qual trabalhou com sons extraídos
da natureza. O CD antecedeu o projeto “Café no Bule” (2015),
concebido ao lado de Zeca Baleiro e Paulinho Lepetit, lançado em disco no ano
passado. Naná também é um dos nomes por trás da trilha sonora do longa-metragem
“O menino e o mundo”, do paulista Alê Abreu, que concorreu ao Oscar
de melhor animação na última semana.

Sobre o Autor

Allyne Ribeiro