Lula: vou ajudar Dilma a governar nem que seja a última coisa que eu faça na vida

24/03/2016 10h39
Estadão Conteúdo – O
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou em discurso para sindicalistas
que vai ajudar Dilma a governar. “Nem que seja a última coisa que eu faça na
vida, vou ajudar a Dilma a governar esse País com a decência que o povo
merece”, afirmou nesta quarta-feira, 23, à plateia de cerca de mil apoiadores
na capital paulista.
Lula disse que a
“companheira Dilma” tinha lhe chamado para compor o ministério em agosto do ano
passado e ele disse não ter aceitado por saber que não é fácil a convivência de
presidente e ex-presidente no governo. “Não sou analfabeto político como alguns
pensam. Tenho noção que não é fácil uma presidente conviver na mesma sala com
um ex-presidente.”
Ele argumentou, contudo,
que, com o agravamento da crise que afeta o País, se convenceu de que deveria
ajudar. “Quando foi agora, com a crise política, os adversários apertando cada
vez mais a Dilma, ela disse ‘preciso de você pra me ajudar’”, relatou Lula no
discurso.
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Segundo o ex-presidente,
ele ainda resistiu porque não queria passar a impressão de que buscava
“privilégios”, mas que acabou cedendo por causa do cenário. “Aceitei porque
tenho pleno bom senso que posso ajudar a Dilma, com aquilo que mais sei fazer
na vida que é conversar, ouvir as pessoas”, afirmou.
Lula chegou a dizer que no
ato pró-governo e de apoio a ele, na sexta-feira, 18, na Avenida Paulista,
sentiu que estava tomando posse de novo. “A impressão que tive na Avenida
Paulista foi que vocês estavam me dando posse”, afirmou.
Golpe
Lula fez uma comparação
histórica para defender a sucessora Dilma Rousseff do que ele e aliados
classificam de iniciativa golpista de forças “conservadoras” contra a
presidente. Lula lembrou que o País tem o maior período de estabilidade
democrática desde a constituição de 1988 e citou os episódios do suicídio de
Getúlio Vargas em 1954 e da deposição de Jango em 1964 com o golpe militar em
uma referência ao que, ao ver dele, ocorre hoje.
O ex-presidente também
citou Juscelino e disse que o golpe foi para que o então ex-presidente não
pudesse concorrer nas eleições de 1965. “Até a historia de apartamento que me
acusam hoje, acusavam Juscelino de ter apartamento no Rio que ele não tinha”,
disse comparando-se ao ex-mandatário.
“Eles têm que aprender que
nós ganhamos a eleição pelo voto democrático. Se eles querem ir pra Presidência
que esperem por 2018”, disse ao argumentar novamente que ele aguardou por
eleições desde 1994 até chegar ao cargo máximo do País em 2002. “Não tentem dar
golpe na Dilma que nós não vamos aceitar. Não existe nenhuma razão legal para o
impeachment. E o respeito pelo povo brasileiro, pelo voto?”, questionou. “Acho
que é bom eles aprenderem a ficarem calmos.”
O ex-presidente reforçou
que os sindicatos e movimentos sociais têm uma obrigação de defender a
democracia. “Tentar tirar a Dilma agora é golpe e esse País não pode aceitar o
golpe na Dilma.”
Ele reclamou das
investigações contra ele. Voltou a dizer que iria depor à Lava Jato sem a
necessidade de ser levado à força pela condução coercitiva e chamou de
“pachorra” a iniciativa de um procurador de São Paulo denunciar sua mulher,
Marisa Letícia, por lavagem de dinheiro. Lula, Marisa e o filho mais velho do
casal foram denunciados pelo Ministério Público de São Paulo por suposta ocultação
de patrimônio no caso que envolve um tríplex no Guarujá.
“Tiveram a pachorra de um
promotor dizer que a dona Marisa estava enquadrada por lavagem de dinheiro”,
bradou Lula. “Eles têm que aprender que mentira tem perna curta” e emendou em
críticas à oposição, repetindo que eles não têm paciência para esperar a
eleição de 2018.
“Se enganam aqueles que
acham que sou contra o combate à corrupção”, disse ao argumentar que seu
governo deu autonomia à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal e
repetiu ser honesto, mais honesto que os integrantes da força-tarefa da Lava
Jato. “Se um deles for mais honesto que eu, desisto da vida pública nesse
País”, bradou. Ele questionou ainda se os coordenadores da Lava Jato imaginam o
tamanho do “prejuízo” que a operação causou à economia brasileira.
Protestos
Lula também reclamou dos
protestos pró-impeachment, dizendo que a imprensa incentiva o “ódio”, em
referência indireta à TV Globo O público gritava “o povo não é bobo, abaixo a
rede Globo”. Lula chegou a dizer estar “enojado” com alguns veículos de
comunicação.

“O que a gente não pode
aceitar é o ódio que está sendo destilado neste País. Acham que quem usa camisa
verde e amarelo é mais brasileiro que nós. Tem muita gente que acha que é mais
brasileiro que nós porque o dólar está alto e não pode fazer enxoval em Miami”,
disse ao argumentar que entre 2007 e 2012 o Brasil era o país “mais otimista do
mundo”. Lula discursou por mais de uma hora, mesmo com a voz bastante rouca por
causa de um resfriado.

Sobre o Autor

Allyne Ribeiro