Dentro do grupo de serviços essenciais, jornalistas tem trabalhado presencialmente diariamente em meio a pandemia do novo coronavírus. Além dos riscos causados pelo alto contágio do vírus, os profissionais tem lidado com agressões físicas e verbais por parte de militantes pró-governo, que só neste mês, agrediram mais de cinco profissionais da imprensa.

“O jornalista passa por um estresse semelhante ao de guerra hoje em dia”, afirma Judith Matloff, ex-correspondente e pioneira no treinamento de segurança para jornalistas. Durante evento virtual “Liberdade de imprensa durante a pandemia”, promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, a ex-correspondente internacional falou sobre o estresse emocional que jornalistas têm passado nos últimos anos. “A mídia está sob ataque. Autoridades, muitas vezes, culpam o mensageiro e você não sabe quando tudo isso vai acabar”.

Nesta semana, jornalistas que trabalhavam em frente ao Palácio da Alvorada foram fortemente hostilizados por alguns apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), após declaração dada por ele, de que não iria conversar com a imprensa. Estes poucos manifestantes pró-governo atacaram os profissionais da imprensa com xingamentos e coro chamando a imprensa de “lixo” e afirmando que a imprensa não está contando a verdade ao público.

Já de tarde, em frente ao Ministério de Defesa, um grupo de pessoas contrários ao isolamento social atacou jornalistas que estavam em frente ao prédio. Um dos manifestantes, que não utilizava a máscara que agora é de uso obrigatório no DF, chegou a ficar a centímetros dos jornalistas gritando para os profissionais “você está fazendo o que aqui? Está trabalhando por quem? Tudo lixo! Lixo!”. As agressões pararam após intervenção de integrante da Secom (Secretaria de Comunicação) e por dois agentes da PM do Distrito Federal.

Em ação para proteger os profissionais, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF), enviou à Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) e ao Gabinete de Segurança Institucional da República (GSI) no último dia 13, um oficio solicitando melhora no esquema de segurança do Palácio da Alvorada. No documento o sindicato ressaltou as agressões frequentes contra os jornalistas e pediu que houvesse banimento de acesso a frequentadores que agredirem física ou verbalmente profissionais da imprensa.

Sob risco

A jornalista e professora Angelina Nunes explicou também durante o seminário da Abraji que jornalistas enfrentam um grande perigo em períodos de crises e epidemias. Também conselheira da Abraji, Nunes afirma que o momento atual tem sido mais crítico para os profissionais da imprensa, “Desde 2013, quando viramos alvo de polícia e militantes, os jornalistas sofreram ataques. Mas agora as próprias autoridades fomentam as agressões – virtuais ou físicas. O objetivo é tirar a credibilidade do jornalismo e fragilizar os profissionais”.

Para entidades como a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e a Abraji, essas agressões têm aumentado por causa de discursos  do presidente Jair Bolsonaro, que incita a hostilização contra os profissionais. De acordo com o monitoramento realizado pela Fenaj, somente neste ano, Bolsonaro proferiu 179 ataques à imprensa sendo 28 agressões diretas a jornalistas, duas direcionadas a entidade e 149 tentativas de descredibilizar a imprensa.

Como se proteger em trabalhos presenciais?

Além da preocupação por causa das agressões, profissionais questionaram Judith Matloff durante o seminário sobre o que fazer durante as manifestações e protestos em favor do governo, que geralmente causam aglomeração e os participantes não utilizam a máscara. A jornalista sugeriu uma série de cuidados, além do uso da máscara, que os profissionais devem aderir durante essas coberturas.

• Levar máscara extra em mochilas;
• Preferencialmente usar a proteção total do rosto;
• Usar microfones longos, tipo “vara de pau”;
• Fornecer máscara para entrevistado;
• Não exagerar em planos de câmera, fazendo vários ângulos. Não se pode ter cobertura de “luxo” na pandemia. “Faça o mais simples e já está ótimo”;
• Equipes que cobrem protestos precisam marcar um ponto de referência para que possam se reencontrar, em caso de agressão;
• Ser solidário com o colega freelancer que, muitas vezes, está nas ruas sem instrumentos de proteção.

Por Equipe Times Brasília