Homem morre com Guillain-Barré após doença ser confundida com virose

25/02/2016 20h36
Virose. Esse foi o
diagnóstico ouvido pela família do metalúrgico Ivaldo Alves da Costa, 53, nas
três vezes em que procurou a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Sotave, em
Jaboatão dos Guararapes. No último dia 16, depois de 12 dias internado no
Hospital da Restauração (HR), no Recife, Ivaldo morreu. No atestado de óbito, a
rara Síndrome Guillain-Barré (SGB) – associada a processos infecciosos como
dengue, chikungunya e zika – consta como causa da morte e revolta a família,
que acredita que ele poderia estar vivo caso tivesse sido diagnosticado a
tempo. Nos últimos dois dias, outras duas pessoas morreram com suspeita da
síndrome no HR, que investiga os casos. Na unidade de saúde que é referência
para o tratamento da síndrome neurológica no estado, a taxa de mortes
associadas à Guillain-Barré foi de 16,3% – superior a estimativa da Organização
Mundial da Saúde (OMS), que não chega a 10%.
Uma dor muito forte na
perna e uma febre leve foram os sintomas que levaram Ivaldo a procurar, no fim
de janeiro, um Posto de Saúde, em Jaboatão. Poucos dias depois, com dor nas
juntas, formigamentos, dormência e sem conseguir se alimentar direito, procurou
a UPA Sotave, onde uma suposta virose foi confirmada, mesmo sem a realização de
exames específicos – segundo relata a família. Nos dias seguintes, voltou à
mesma UPA duas vezes, já sem conseguir ficar em pé sozinho e com dificuldade de
suportar as fortes dores. O diagnóstico era sempre o mesmo.
Revoltada diante da falta
de atenção com o marido, que piorava agressivamente a cada dia, a viúva
Valdênia Vieira chegou a pressionar o médico para que ao menos um nome fosse
dado à tal virose. “Deve ser uma virose dessas, tipo chikungunya”, foi a
resposta que ouviu, conta, lembrando de outros abusos ocorridos dentro da
unidade de saúde. “Na segunda vez que fomos eu perguntei se ele não ia nem
aferir a pressão e nem fazer teste de glicose e o médico perguntou ‘ele é
diabético? é hipertenso? então não precisa fazer’”, relata. “Se o médico, que
estudou para isso, está dizendo que é uma virose, uma pessoa simples como eu
vai dizer o que?”, questiona.
Ivaldo já não andava,
havia perdido os movimentos das mãos, o controle sobre urina e fezes, respirava
com dificuldade e oscilava momentos de lucidez e inconsciência quando voltou à
UPA pela quarta vez, no Sábado de Zé Pereira, quando finalmente foi encaminhado
para o Hospital da Restauração. “Foi a primeira vez que o médico da UPA
levantou da cadeira e examinou meu marido de verdade. Fez algumas perguntas, um
teste de sensibilidade e me disse que era mais sério do que eu pensava”, lembra
a viúva, ainda abalada. “Na hora da transferência queriam que ele andasse, mas
ele nem ficava de pé. Ele já estava com muita dificuldade para respirar e foi
para o balão de oxigênio, a pressão dele estava 23×12, dava para ver o coração
batendo rápido”, conta.
No HR, a confirmação:
Ivaldo já estava com o corpo paralisado do pescoço para baixo e as atividades
digestivas e respiratórias já estavam comprometidas. Ele foi entubado e ficou
internado por 12 dias na Sala Vermelha da unidade de saúde – que estaria com o
dobro da capacidade de pacientes.
Dentro do hospital, conta
a viúva, ouviu de uma assistente social que o quadro poderia ser outro, caso o
atendimento tivesse sido realizado da forma correta. “Perdi o amor da minha
vida. Foram 27 anos de casados e ele era, além de marido, meu amigo. Sei que
nada acontece se não for a vontade de Deus, mas imagino que se ele tivesse sido
recebido de outra forma, talvez ainda estivesse aqui. O médico disse que desde
a primeira vez ele deveria ter sido transferido, mesmo que tivesse morrido,
podia ter chegado no hospital a tempo de ser bem cuidado”, lamenta, emocionada.
O filho de Ivaldo, Emerson
Alves, acredita que a falta de preparação e organização médica e a falta de
informação da sociedade colaboraram para a morte do seu pai. “Não houve nenhum
cuidado especial, a UPA sequer avisou à Secretaria de Saúde. Tem que haver mais
cuidado, mais informação porque se a gente tivesse conhecimento meu pai não
teria morrido, e se continuar assim ainda terão muitas vítimas”, preocupa-se.
Casos recentes no HR
Na última terça-feira o
recepcionista Artur da Silva, 33, morreu no HR após 10 dias de internamento com
suspeita de complicações após arboviroses. Em uma ficha de esclarecimento, a
equipe médica do hospital aponta a suspeita de 
Síndrome de Guillain-Barré. No domingo, também no HR, morreu Ana Paula
do Carmo Pereira da Silva, 27, cujo atestado de óbito também sugere a síndrome
como causa.

A Secretaria Estadual de
Saúde (SES) esclareceu que a síndrome de Guillain-Barré não é de notificação
compulsória no Brasil e que, portanto, não há um protocolo a ser seguido neste
sentido, mas garantiu que a orientação é para que os casos suspeitos sejam
encaminhados imediatamente ao Hospital da Restauração, centro de referência
para a síndrome. A SES ainda informou que a UPA Sotave é responsabilidade do
município. 
Virose. Esse foi o
diagnóstico ouvido pela família do metalúrgico Ivaldo Alves da Costa, 53, nas
três vezes em que procurou a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Sotave, em
Jaboatão dos Guararapes. No último dia 16, depois de 12 dias internado no
Hospital da Restauração (HR), no Recife, Ivaldo morreu. No atestado de óbito, a
rara Síndrome Guillain-Barré (SGB) – associada a processos infecciosos como
dengue, chikungunya e zika – consta como causa da morte e revolta a família,
que acredita que ele poderia estar vivo caso tivesse sido diagnosticado a
tempo. Nos últimos dois dias, outras duas pessoas morreram com suspeita da
síndrome no HR, que investiga os casos. Na unidade de saúde que é referência
para o tratamento da síndrome neurológica no estado, a taxa de mortes
associadas à Guillain-Barré foi de 16,3% – superior a estimativa da Organização
Mundial da Saúde (OMS), que não chega a 10%.
Uma dor muito forte na
perna e uma febre leve foram os sintomas que levaram Ivaldo a procurar, no fim
de janeiro, um Posto de Saúde, em Jaboatão. Poucos dias depois, com dor nas
juntas, formigamentos, dormência e sem conseguir se alimentar direito, procurou
a UPA Sotave, onde uma suposta virose foi confirmada, mesmo sem a realização de
exames específicos – segundo relata a família. Nos dias seguintes, voltou à
mesma UPA duas vezes, já sem conseguir ficar em pé sozinho e com dificuldade de
suportar as fortes dores. O diagnóstico era sempre o mesmo.
Revoltada diante da falta
de atenção com o marido, que piorava agressivamente a cada dia, a viúva
Valdênia Vieira chegou a pressionar o médico para que ao menos um nome fosse
dado à tal virose. “Deve ser uma virose dessas, tipo chikungunya”, foi a
resposta que ouviu, conta, lembrando de outros abusos ocorridos dentro da
unidade de saúde. “Na segunda vez que fomos eu perguntei se ele não ia nem
aferir a pressão e nem fazer teste de glicose e o médico perguntou ‘ele é
diabético? é hipertenso? então não precisa fazer’”, relata. “Se o médico, que
estudou para isso, está dizendo que é uma virose, uma pessoa simples como eu
vai dizer o que?”, questiona.
Ivaldo já não andava,
havia perdido os movimentos das mãos, o controle sobre urina e fezes, respirava
com dificuldade e oscilava momentos de lucidez e inconsciência quando voltou à
UPA pela quarta vez, no Sábado de Zé Pereira, quando finalmente foi encaminhado
para o Hospital da Restauração. “Foi a primeira vez que o médico da UPA
levantou da cadeira e examinou meu marido de verdade. Fez algumas perguntas, um
teste de sensibilidade e me disse que era mais sério do que eu pensava”, lembra
a viúva, ainda abalada. “Na hora da transferência queriam que ele andasse, mas
ele nem ficava de pé. Ele já estava com muita dificuldade para respirar e foi
para o balão de oxigênio, a pressão dele estava 23×12, dava para ver o coração
batendo rápido”, conta.
No HR, a confirmação:
Ivaldo já estava com o corpo paralisado do pescoço para baixo e as atividades
digestivas e respiratórias já estavam comprometidas. Ele foi entubado e ficou
internado por 12 dias na Sala Vermelha da unidade de saúde – que estaria com o
dobro da capacidade de pacientes.
Dentro do hospital, conta
a viúva, ouviu de uma assistente social que o quadro poderia ser outro, caso o
atendimento tivesse sido realizado da forma correta. “Perdi o amor da minha
vida. Foram 27 anos de casados e ele era, além de marido, meu amigo. Sei que
nada acontece se não for a vontade de Deus, mas imagino que se ele tivesse sido
recebido de outra forma, talvez ainda estivesse aqui. O médico disse que desde
a primeira vez ele deveria ter sido transferido, podia ter chegado no hospital a tempo de ser bem cuidado”, lamenta, emocionada.
O filho de Ivaldo, Emerson
Alves, acredita que a falta de preparação e organização médica e a falta de
informação da sociedade colaboraram para a morte do seu pai. “Não houve nenhum
cuidado especial, a UPA sequer avisou à Secretaria de Saúde. Tem que haver mais
cuidado, mais informação porque se a gente tivesse conhecimento meu pai não
teria morrido, e se continuar assim ainda terão muitas vítimas”, preocupa-se.
Casos recentes no HR
Na última terça-feira o
recepcionista Artur da Silva, 33, morreu no HR após 10 dias de internamento com
suspeita de complicações após arboviroses. Em uma ficha de esclarecimento, a
equipe médica do hospital aponta a suspeita de 
Síndrome de Guillain-Barré. No domingo, também no HR, morreu Ana Paula
do Carmo Pereira da Silva, 27, cujo atestado de óbito também sugere a síndrome
como causa.
A Secretaria Estadual de
Saúde (SES) esclareceu que a síndrome de Guillain-Barré não é de notificação
compulsória no Brasil e que, portanto, não há um protocolo a ser seguido neste
sentido, mas garantiu que a orientação é para que os casos suspeitos sejam
encaminhados imediatamente ao Hospital da Restauração, centro de referência
para a síndrome. A SES ainda informou que a UPA Sotave é responsabilidade do
município. (Fonte:DiarioPE)

Sobre o Autor

Allyne Ribeiro