”Foi caixa 2 mesmo, excelência”, diz marqueteira a juiz da Lava Jato

22/07/2016 14h19
Diante do juiz federal
Sérgio Moro, da Operação Lava Jato, a empresária Mônica Moura – esposa e sócia
do publicitário João Santana, marqueteiro das campanhas de Lula e Dilma –
confessou que 4,5 milhões de dólares recebidos do operador de propinas Zwi
Scornicki em conta no exterior eram referentes “a uma dívida de campanha que o
PT ficou devendo pra gente na campanha de 2010”.
Ela afirmou que o então
tesoureiro do PT João Vaccari Neto orientou-a a procurar Zwi. “Primeira
campanha da presidente Dilma. Ficou uma dívida de quase R$ 10 milhões que não
foi paga, demorou, foi protelada, eu cobrei muito, tinha muitas dívidas de
campanha, se tentou resolver de várias formas. Enfim, depois de muita luta tive
uma conversa com o Vaccari que acertava os pagamentos de campanha. Ele mandou
procurar um empresário. Assim eu cheguei no sr. Zwi. O Vaccari me deu o contato
dele, fui a um escritório dele no Rio. Fui acertar com ele a forma de
pagamento.”
O juiz Moro questionou a
mulher de João Santana se “foi tratado de onde vinha o dinheiro”. “Não, não”,
ela respondeu. “A Srª. não perguntou a Vaccari ou a Zwi?“, insistiu o juiz.
“Não, não. Estava recebendo pelo meu trabalho. Só perguntei ao Vaccari “como
vai ser feito isso”. Ele disse “olha, vai ter que parcelar, vai conversar com
ele (Zwi) que já está tudo acertado.”
Ela admitiu que não
registrou o pagamento parcelado na Justiça Eleitoral. “Não, foi caixa 2 mesmo
excelência. Não foi declarado.”
O juiz perguntou à ré por
que não confessou logo que foi presa em fevereiro e depôs na Polícia Federal.
“Primeiro, porque eu passava por uma situação extrema. E o País estava vivendo
um momento muito grave política e institucionalmente. As coisas acontecendo com
a presidente Dilma, todo o processo, eu não quis atrapalhar esse processo, eu
não quis incriminar, não queria contribuir com uma coisa para piorar. Acabei
falando (que recebeu) de campanha no exterior. Eu queria apenas poupar (Dilma)
de piorar a situação. Eu quis apenas não piorar a situação.“
O juiz indagou a Mônica se
ela não tinha receio de receber propinas do esquema Petrobras. “Nunca pensei
nisso, nunca me passou pela cabeça. Eu estava recebendo remuneração pelo meu
trabalho, usando uma conta não declarada no exterior. O receio que eu tinha,
óbvio, é que estava usando uma conta não declarada no exterior. Sempre tive
muito receio disso, mas, infelizmente, no meu trabalho, na minha atividade,
isso acontece sempre. Faz parte dos trabalhos da campanha política. Sempre são
pagamentos em caixa 2, uma prática que acontece.”
Laudo da Polícia Federal
indica que a empresa do casal (Pólis Propaganda) recebeu R$ 170 milhões do PT,
entre 2006 e 2014. “São valores expressivos”, ela reconheceu. “Fazer TV, campanha
no Brasil, é muito caro. Isso (R$ 170 milhões) se refere a campanhas.”
“Banalização”
Moro perguntou o motivo de
não ter incluído os 4,5 milhões de dólares recebidos de Zwi Scornicki na
contabilidade da agência Pólis Propaganda. “Os partidos não aceitam, sempre
tentei para ficar mais tranquila, não tinha que correr riscos, fazer esse
malabarismo de empresário doador de campanha, mas o partido não aceita porque
tem o teto, vai extrapolar o teto limite que tem no Tribunal Superior
Eleitoral. Os partidos não querem declarar o real valor que recebem das
empresas. Em contrapartida nós profissionais ficamos no meio disso. Portanto,
nunca era declarado todo o valor. Não era uma opção minha, era uma prática não
só do PT, em todos os partidos.”
Moro questionou a mulher
de João Santana se ela não considera “uma trapaça a banalização do caixa 2”.

“Eu queria receber esses
valores o mais rápido possível, mas o Vaccari já havia me informado que ia
parcelar, não tinha como pagar de uma vez. Eu queria. O (Vaccari) disse que
(Zwi) era um grande empresário, uma pessoa honesta, decente, que colaborava com
o partido e que iria pagar essa dívida nossa. Mas eu nunca pensei em dinheiro
sujo“.(fonte: Agência Estado/foto reprodução)

Sobre o Autor

Allyne Ribeiro