Ex-ministro diz que Delcídio não tem credibilidade e delação é retaliação ao governo

03/03/2016 21h08
Estadão Conteúdo – O
ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo e agora advogado-geral da União,
disse na manhã desta quinta-feira, 03, que o senador Delcídio Amaral (PT-MS)
não tem credibilidade para fazer acusações e que sua delação pode ser uma
retaliação ao governo por não tê-lo ajudado a deixar a prisão. “O senador
Delcídio não tem primado por dizer a verdade”, afirmou Cardozo após a cerimônia
que oficializou sua saída do MJ e ingresso na AGU.
De acordo com a revista
IstoÉ, Delcídio teria dito em delação premiada que a presidente Dilma tentou
atuar ao menos três vezes para interferir na Operação Lava Jato por meio do
Judiciário. “É indiscutível e inegável a movimentação sistemática do ministro
da Justiça, José Eduardo Cardozo, e da própria presidente Dilma Rousseff no
sentido de promover a soltura de réus presos na operação”, afirmou Delcídio na
delação, segundo a revista. Cardozo deixou esta semana o ministério alegando
sofrer pressões do PT.
“O senador Delcídio,
lamentavelmente, depois de todos os episódios, não tem credibilidade para fazer
nenhuma afirmação”, afirmou Cardozo, salientando que ainda não leu a reportagem
e colocando em dúvida a existência de uma delação premiada. “Se for o que estão
dizendo o que ele disse, que houve uma articulação para nomear juízes, isso é
um verdadeiro absurdo, tanto que estão presos os réus”, disse o novo
advogado-geral da União.
Na delação, Delcídio teria
citado também o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e detalhado os
bastidores da compra da refinaria de Pasadena pela Petrobras. As primeiras
revelações do ex-líder do governo fazem parte de um documento preliminar da
colaboração. Nessa fase, o delator indica temas e nomes que pretende citar em
seus futuros depoimentos após a homologação do acordo. Delcídio foi preso no
dia 25 de novembro do ano passado acusado de tentar atrapalhar as investigações
da Operação Lava Jato e solto no dia 19 de fevereiro.
O senador foi denunciado
pela Procuradoria-Geral da República (PGR) ao Supremo pela tentativa de
atrapalhar as investigações. Em conversas gravadas pelo filho do ex-diretor da
Petrobras Nestor Cerveró, o senador aparece negociando o silêncio do ex-diretor
da estatal. Nas gravações, Delcídio sugere uma rota de fuga e dinheiro à
família de Cerveró, para não ser mencionado em eventual acordo de delação
premiada. Na delação, de acordo com a revista, o senador teria negociado com
Cerveró a mando do ex-presidente Lula.
Desde que deixou a prisão,
o senador vinha afirmando que não faria acordo de delação premiada, pois iria
“reescrever” sua história “sem revanchismo”.
Retaliação
Cardozo considerou a
suposta delação uma retaliação ao governo. “Recebíamos muitos recados, inclusive
alguns foram publicados, em que se falava que, se o governo não agisse para
tirá-lo da prisão, ele faria retaliações. Se efetivamente houve (delação), há
uma forte possibilidade de ser retaliação, até porque isso foi anunciado
previamente. Se o governo não fizesse nada para ele sair da cadeia, ele
retaliaria”, disse o ministro, informando que, após ler a reportagem da
revista, voltaria a se pronunciar.

O ex-ministro também negou
ter atuado a mando de Dilma para interferir na Lava Jato. “Jamais (atuei). A
postura sempre foi a mesma que eu tinha com a Polícia Federal, independência de
apuração e de julgamento. Aliás, os réus estão presos. Que articulação é esta
que o STJ mantém as prisões? Se é verdade que ele fez a delação premiada, a
possibilidade de mais uma vez ele ter faltado com a verdade é grande”, afirmou
José Eduardo Cardozo. Agenciabrasil

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Allyne Ribeiro