Quem encontra o ex-produtor de eventos Antônio Malan de Carvalho, de 51 anos, andando pelas ruas de Petrolina, no Sertão de Pernambuco, sabendo direitinho qual caminho seguir, driblando a falta de acessibilidade na maioria das calçadas da cidade sempre com um sorriso largo no rosto, não imagina a batalha que ele travou para aceitar a cegueira. O homem, que hoje é uma das referências na luta pela inclusão da pessoa com deficiência no Vale do São Francisco, perdeu a visão em 1996, após sofrer um descolamento de retina no olho esquerdo.


O problema logo afetou também o olho direito. Foi preciso força para superar a depressão e perceber que a vida poderia ser encarada de outra forma.
Malan conta que no início passou por um período muito difícil até aceitar que a cegueira estaria com ele para sempre. “Eu não queria sair de casa, me isolei, não queria que ninguém visse a minha situação. Tentei o suicídio por diversas vezes”.


O preconceito e a baixa autoestima foram grandes adversários. Levado pela mãe, dona Luiza Moreno, para a escola de reabilitação de cegos de Petrolina, Malan demorou muito para se adaptar. “Eu não gostava de lá. Era uma sala imensa, com um monte de cegos. A principal atividade era amassar papel e jornais, para tornar o tato mais sensível, coisas que eu odiava fazer porque era muito estranho”, lembra Malan, completando.


“Eu não me aceitava como cego, então eu não gostava de cegos” .


Por sinal, dona Luiza foi a grande responsável pelos avanços do filho. Em 1998, após ver uma reportagem na televisão sobre a importância de pessoas cegas voltarem a estudar, ela decidiu que Malan retornaria para a sala de aula. Todos os dias, mãe e filho iam juntos para a Escola Joaquim André Cavalcanti. “Eu não gostava de ir para a escola por conta do preconceito, as pessoas ficavam gritando: “olha o ceguinho.”


ADVP


Com o tempo, Malan foi se aceitando. Aos poucos, foi descobrindo outras pessoas, gente que convivia com a mesma deficiência que a dele. “Quando eu comecei a sair de casa, fazer as coisas só, e me juntei aos grupos de deficientes visuais, percebi que a vida continuava. Então decidi que eu ia ter que ser exemplo para outras pessoas com as mesmas limitações”, afirma.


Foi na Associação de Deficientes Visuais de Petrolina (ADVP) que Malan encontrou o lugar certo para fazer a diferença. Na instituição, as pessoas com deficiência são amparadas com uma série de serviços, como solicitar auxílio em processos judiciais, consultas com advogados; encaminhamento para escolas adaptadas, para que possam concluir os ensinos fundamental e médio.


Integrante da ADVP desde 2000, Malan foi se destacando e, em 2003, assumiu a presidência da Associação, cargo que ocupa até hoje, sem receber nenhum centavo. “Durante as eleições, as pessoas não se candidatam porque não querem que eu saia da presidência. Eu já estou na presidência há muito tempo. Acredito que outras pessoas devem se candidatar pra termos novas ideias”, destaca.

Em 2010, com a criação do time de Futebol de 5, modalidade praticada por pessoas cegas, a ADVP cruzou as fronteiras de Pernambuco. A equipe de Petrolina hoje faz parte da elite do esporte no Brasil. Além de ser um dos atletas do time, Malan é responsável por apresentar o esporte a outras pessoas.

 Foi assim que o bicampeão paralímpico com a Seleção Brasileira, Raimundo Nonato, descobriu a modalidade.O trabalho com a ADVP e a força para superar os problemas que encontrou pelo caminho fazem com que Malan, que atualmente mora com a mãe e um dos seis irmãos, tenha uma certeza. “Hoje sou um homem bem diferente do Antônio Malan de 1996, hoje entendo o porquê precisei passar por tudo o que passei, viver e senti tudo aquilo. Caso o contrário, eu não ia saber o que falar para as pessoas que precisam de ajuda. Hoje, acima de tudo, agradeço a Deus, pois graças a ele consegui ajudar muita gente a caminhar com as próprias pernas”. (Matéria feita por Ângela Monteclaro, estagiária, com supervisão de Emerson Rocha – Fonte: G1 Petrolina)