A piora na vida dos mais pobres

Por - 09/07/2016
A previsão constava de um
estudo do Ipea feito em 2010: em 2016, dizia, a miséria daria traço no Brasil –
a pobreza extrema estaria “praticamente superada” e se transformaria
em uma insignificância estatística. Havia razão para tanto otimismo. Naquele
ano, o último do segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, o crescimento do
PIB havia fechado em 7,5%, o maior desde 1986. Mais de 13 milhões de
brasileiros já tinham desembarcado da extrema pobreza, e o poder de compra do
salário mínimo havia aumentado quase 10% ao ano, no período compreendido entre
1995 e 2008. Passados seis anos, no entanto, o Brasil anda de marcha a ré.
Novos estudos, estes coordenados por Marcelo Neri, do Centro de Políticas
Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV), indicam que os miseráveis – aqueles
que não deveriam mais existir em 2016 – estão, na verdade, prestes a aumentar.
Um dos dados que mostram a
iminência desse fenômeno é a queda inédita e simultânea de dois índices
importantes no último trimestre de 2015: o da renda da população e o da
“taxa de equidade”, que mede quanto o país está mais igual – e,
portanto, menos desigual. Ambos compõem o índice de bem-estar social da FGV. As
duas quedas, da renda e da equidade, decorrem dos mesmos fatores, afirma Neri:
“A inflação leva dois terços da culpa e a falta de emprego, incluindo o
informal, é responsável pelo outro terço”.
Até o fim de 2016, a renda
per capita dos brasileiros deve recuar quase 10% em relação a 2014, aponta
outro estudo da FGV. Será a segunda maior queda em 116 anos. Pior que esse tombo,
apenas o do triênio 1981-1983, também marcado por uma crise econômica grave.
Segundo um estudo da consultoria Tendências, a derrocada vai levar 7,8 milhões
de brasileiros de volta à pobreza e seu entorno. Se o país não voltar a crescer
até 2018, haverá mais pessoas nessa situação do que em 2005, ainda nos
primeiros anos do governo Lula, prevê a consultoria.

No mês passado, VEJA
percorreu cidades do Ceará, Bahia e Minas Gerais para revisitar brasileiros que
em 2010 falaram à revista sobre seus planos e esperanças. O título da
reportagem era “A vida melhorou”. Nesta apuração, no entanto, o que
se viu foi a confirmação, na vida real, daquilo que registram os indicadores
econômicos. Para todos os entrevistados, a vida piorou. veja.com